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Entrevista Especial Outubro Rosa: Meire – Eu Venci o Cancêr de Mama!

Entrevista Especial Outubro Rosa - Eu venci o Câncer

Entrevista Especial Outubro Rosa – Meire (Nelsimeire Eustáquia da Silva Cavalcante) – 44 anos (09/09/1976)

Tudo começou no  mês de Agosto de 2009, cheguei em casa e estava tomando banho após um dia normal, passo a mão em cima do seio e sinto um caroço. Parecia uma pedra. Era algo assim, bem  rígido.

Naquela hora eu não pensei que fosse algo tão sério como um câncer. Sendo bem sincera, eu nem dei tanto crédito assim. Coloquei em minha cabeça de que precisava em algum momento ir ao médico, mas naquela hora havia outras prioridades.

Particularmente, aquele ano estava sendo muito conturbado na minha vida. Foi um ano em que passei por situações familiares adversas e perdas irreparáveis na família. Eu mesma estava passando por tantos problemas que meu nível de estresse e ansiedade estavam altíssimos. Eu maltratava as pessoas sem perceber, dava respostas atravessadas, algo que não é típico de mim. Mas eu não percebia, eram os outros que vinham me cobrar sobre essas atitudes. Demorei a perceber que não estava bem emocionalmente.

Resolvi consultar um médico. Tanto por conta desses problemas pessoais que mencionei, quanto pelo surgimento do nódulo. Mal sabia eu que minha vida estava prestes a mudar para sempre. Fiz uma ecografia mamária e o mastologista já me deixou ciente de que o caso era sério. Solicitou uma punção mamária e ficamos aguardando o resultado da biópsia. Nesse momento, os parentes e familiares mais próximos foram informados, e eu percebia o nervosismo e preocupação de todos.

No dia 28 de dezembro de 2009 saiu o laudo,  eu e meu esposo chegamos ao hospital e pedi para que ele me deixasse ver o resultado sozinha.

Não acreditei quando eu vi o que estava escrito: Carcinoma Infiltrante de Mama Direita. Era óbvio, estava muito claro! Mas não acreditei. Mostrei a meu esposo e ele também não queria crer. No mesmo hospital pedimos que um médico visse o exame e a resposta foi clara. Ele falou aquilo que nós não queríamos ouvir. Eu estava com câncer de mama.

O que vou relatar adiante condiz exatamente com todos os meus sentimentos…

Naquele momento foi como se eu perdesse o chão debaixo dos meus pés. Foi muito surreal. Uma doença em que o nome era sempre relacionado a morte. Angústia, a dor, o medo, as incertezas, insegurança, sentimentos diversos tomaram conta de mim.

Eu e meu esposo saímos calados daquele hospital e entramos no carro. Eu dirigi, pois na época ele ainda não tinha habilitação. O silêncio era um fato dentro daquele veículo. Não aguentei, parei o carro. Chorei, chorei e chorei muito. Muitas perguntas vinham à minha cabeça e muitas dúvidas, muitas incertezas. Meu esposo me acompanhou no choro, mas ao mesmo tempo me deu palavras de coragem. Lembro que ele falou: “Nós vamos vencer”.

Era fim de ano! O momento em que as famílias se reúnem para passar os festejos. Os sentimentos nessa época já estão naturalmente mais aflorados. Dia 28 era aniversário do meu pai! Meu pensamento foi não contar de imediato, por se tratar de uma data tão significante, tão alegre. Guardamos o laudo e a angústia.

Tomei a decisão de contar para minha família somente no dia seguinte.

Reuni todos. O momento foi de muito amor, muita segurança e muita força! Eu sei que longe de mim todos ficaram perplexos ou até choraram. São sentimentos comuns, afinal, ninguém esperava ter alguém com câncer na família.

Eu, com 33 anos de idade, começava a pensar em morte, sabe? Eu tenho um marido. Eu tenho uma família. Tenho amigos… eu tenho uma filha!

Minha menina tinha doze anos na época. Como falar dessa doença para um filho? O que poderia gerar em seu emocional? Eu não sabia como lidar com essa situação. Conversei com ela sobre o fato e no primeiro momento ela não teve reação. Hoje sei que ela ficou desamparada emocionalmente eu deveria ter providenciado um psicólogo a fim de ajudá-la nessa fase.

Algumas pessoas se aproximaram mais, as que já participavam de tudo em minha vida ficaram muito mais próximas. Eu também afastei algumas pessoas por não conseguir dar assistência às mesmas durante o tratamento, pois nem sempre tinha ânimo de receber visitas. Algumas pessoas acabam se distanciando como um processo natural da vida. Não são todos que estão preparados para lidar com certas situações.

Infelizmente, ainda a palavra câncer é muito associada à morte. Causa insegurança, angústia, dor, incerteza, justo no momento em que o paciente deveria estar mais tranquilo para o tratamento. Ninguém tem noção de como reagir e de como vai ser o tratamento, quais serão os efeitos colaterais e o quanto vamos sofrer.

Eu tenho uma tia muito querida que é técnica em enfermagem. Logo que ela ficou sabendo, veio até mim e disse que não abriria mão que eu me consultasse com a mastologista dela, pois era uma médica de confiança, conhecida em Brasília e muito profissional. A doutora estava de férias e veio ao hospital público me atender pela amizade com minha tia. Foi uma pessoa que Deus colocou em minha vida. Ela me deu segurança, me norteou.  A princípio, quando me consultou, viu que o tumor estava avançado e havia também um outro nódulo na axila. O câncer estava disseminando.

Nesse momento é que a gente percebe que quer um médico de confiança por perto e pessoas que te ajudem a tomar decisões importantes. A vida é minha, o corpo é meu, mas o que sei sobre esse tratamento? No momento não sabia nada!

O calor humano é imprescindível. E eu senti isso vindo de todos os lados: seja dos meus familiares, dos meus amigos e dos médicos que me atenderam durante todo o processo. Eles foram fundamentais para que eu pudesse seguir em frente. Calor humano e afeto é tudo o que um paciente com câncer precisa. Eu tive!

A doutora decidiu que eu faria um tratamento quimioterápico primeiro, para reduzir aquele tumor. A intenção é que não houvesse a retirada total do seio, a mastectomia radical. Fui encaminhada para outro médico, de confiança dela e que também é referência aqui em Brasília, conhecido por toda área oncológica. Eu faria o tratamento na rede particular pelo convênio empresarial que eu tinha.

Ele analisou meu caso com carinho, me tratou humanamente e norteou o tratamento inicial. Sou professora de profissão. Eu tinha o sentimento de que não podia deixar meus alunos na mão. Cheguei a retornar ao trabalho, mas logo meu médico solicitou o afastamento, pois o tratamento me deixaria muito debilitada.

A primeira quimio foi muito forte. Foi a chamada quimioterapia vermelha. Foram quatro ciclos, um a cada vinte e um dias. O médico me avisou que no máximo em quinze dias meu cabelo iria começar a cair, como efeito colateral da quimioterapia, entre outros.

Era 8 de março, o dia internacional da mulher. Meus cabelos já estavam caindo demais, por conta própria decidi não esperar mais. Eu mesma fui em um barbeiro da família e pedi para raspar tudo! Cheguei na casa dos meus familiares e quando eles viram foi um choque. A meu pedido, meu irmão terminou o trabalho do barbeiro e passou lâmina no meu couro cabeludo. Minha irmã me viu e saiu chorando. Meu irmão e meu sobrinho rasparam a cabeça em solidariedade a mim!

E sim, para quem pergunta, cai os pelos do corpo inteiro.

As quimioterapias foram:

●        AC ciclofosfamida e doxorrubicina a cada 21 dias e num total de 4.

Os sintomas que tive foram: Náusea, vômito, inflamação na boca, pele seca e perda total dos cabelos. Muitas vezes meu corpo ficava debilitado e não sentia vontade de fazer nada. Depois de uns dias meu corpo ia reagindo.  

●        Paclitaxel 1 vez por semana durante 12 semanas.

Os sintomas foram mais leves, como calafrios e dores nos ossos, diarreia. Durante essa quimio senti um pouco mais de tranquilidade, pois ela era mais tranquila em relação a quimioterapia anterior.

Durante esse tratamento a paciência e cuidado da família são essenciais. Lembro de meu pai e esposo sempre me perguntando o que eu queria comer. Meu esposo fazia sucos naturais de todo tipo para aumentar a imunidade. A família procurava tudo o que era bom para a saúde de quem passava por esse tratamento. Cuidado de quem te ama!

Na clínica onde fiz o tratamento cada profissional era único. Nunca vi profissionais da saúde tão envolvidos com o paciente como naquele lugar. Em cada quimio me senti amada e cuidada. Eles sentavam e conversavam com os pacientes como se fossem da família. Hoje não é diferente, são profissionais únicos!

Retornei à mastologista muito feliz e muita emocionada. Poxa… o tratamento fez toda diferença e eu não ia precisar fazer cirurgia!

Nesse momento, a notícia não foi a das melhores…

A notícia que ela me deu foi que eu precisaria fazer a mastectomia radical. Naquele momento, eu perdi o chão pela segunda vez.

“Meire, a partir do momento que você tem um tumor em seu seio, ele não é mais um seio. É um tumor. Você quer ficar com um tumor no seu corpo?”. Essa frase dita pela médica foi tão impactante para mim que na hora eu pensei… tirar meu seio? Eu nunca fui uma pessoa vaidosa, mas… perder uma parte do corpo é uma mutilação! No entanto pior é perder um braço, uma perna,.. Então vamos retirar o seio!”

Quando tomei ciência da gravidade resolvi que queria saber o que eu teria que fazer para me livrar disso logo!

Fiz os procedimentos seguintes na rede particular de saúde, já que meu convênio cobriria. Eu disse para a médica que gostaria de fazer naquele hospital público onde eu estava me tratando, pois eu queria que ela participasse da cirurgia. Mas não seria necessário, pois ela me acompanharia em qualquer hospital particular que eu fosse, sem cobrar nada. Calor humano! Não tive palavras para agradecer. Até hoje fico pasma quando lembro.

Assim, foi realizada a mastectomia radical e, em seguida, uma equipe já fez minha reconstrução mamária. Então, eu não tive que passar por essa dor também, de me ver sem um seio, uma dor que muitas mulheres passam.

Depois das cirurgias, vieram as radioterapias e seus efeitos…

Os sintomas da rádio… minha pele ficava um pouco vermelha, mas eu não senti dor. É uma radioterapia externa e localizada para onde o tumor foi diagnosticado, que no caso foi no seio e na axila.

Foi cansativo, desgastante, mas necessário. Deus sempre foi o primeiro a me dar forças e me proporcionou tudo que eu precisei por meio das pessoas que se permitiram serem tocadas por ELE. 

Eu sofri, chorei, eu senti dor, mas eu superei. Só quem sofre com o câncer sabe o que quero dizer.

Terminei esse tratamento no final do ano de 2010. Voltei a trabalhar no ano seguinte e continuei o acompanhamento com meu oncologista. Não esperava que o câncer voltasse, embora o que eu mais ouvia era que o câncer é uma doença crônica e poderia voltar a qualquer momento.

Em 2015 muitas novidades em minha vida e uma delas foi a recidiva do câncer na pleura. Era uma metástase do câncer de mama. Então, esse foi um outro momento muito difícil, mas que também foi superado! Hoje tomo uma medicação de manutenção a cada 21 dias.

Se hoje em dia eu necessito de cuidados especiais? Não. Eu apenas cuido de meu braço direito devido ao esvaziamento axilar. Fiquei com a mobilidade restrita no braço direito. Não me impede de fazer atividades normais, mas tenho que evitar: tomar injeções ou vacinas, retirar sangue e verificar a pressão arterial neste braço, evitar calor e esforço repetitivo. Posso dirigir apenas carro com direção hidráulica, para evitar um linfoma. Todas as queimaduras, arranhões e cortes nessa região são mais perigosas que em outras regiões do corpo.

Minha família me acompanhou em todas as quimioterapias, consultas, cirurgias e radioterapias. Sabe aquela tia que mencionei? Ficamos mais amigas e ela não abriu mão de estar comigo durante todo tratamento. Família!!! Presente de Deus!

Se eu enxergo a vida de outra forma?

Sabe… Deus me ajudou realmente a superar muito essa situação. Deus colocou anjos em minha vida na forma de médicos, enfermeiros e todos aqueles que cuidaram de mim. Tive câncer. Foi um aprendizado permitido por Ele. Isso é certo, não é algo questionável. Mas aprendi algo com toda essa situação.

Aprendi que minhas prioridades devem ser sempre Deus, eu e família. Comecei a valorizar mais o ser, e não o ter.

O que eu tenho de valor é quem me ama, quem me cerca, independente do que eu tenho. Aprendi a reavaliar minhas prioridades.

Hoje eu tenho 44 anos. O peso da vida vai chegando, o cansaço vai chegando. Em cada detalhe dessa doença eu fui cuidada. Em cada detalhe do câncer de mama eu fui amada! E isso jamais eu vou poder reclamar.

Sim. Eu enxergo a vida de outra forma!

Recentemente criei um perfil no Instagram, o hope.acreditar, com objetivo de compartilhar um pouco da minha história e ajudar mulheres que lutam contra o Câncer de Mama!

26 thoughts on “Entrevista Especial Outubro Rosa: Meire – Eu Venci o Cancêr de Mama!

  1. Maria says:

    Participei de toda essa história dolorida. Mas tivemos a vitória. Hoje ver a Meire bem, alegre, batalhando para permanecer saudável me motiva a viver.

  2. Maria says:

    Participei de toda essa história dolorida. Mas tivemos a vitória. Hoje ver a Meire bem, alegre, batalhando para permanecer saudável me motiva a viver. Como ela mesma diz: Um dia de cada vez.

  3. João Victor says:

    Meire, você é a guerreira mais forte que eu conheço… Agradeço a Deus por ter colocado em minha vida uma família tão abençoada! 🙏🏼

  4. Wellington says:

    Eu imagino o quanto você foi, e continua sendo forte, não tenho dúvidas de que o Senhor Deus esteve no controle da sua vida, que tudo o que você passou, você não passou sozinha, o Senhor Deus sempre esteve ao seu lado em todos os momentos. Sem dúvida foi um aprendizado para a vida toda, um aprendizado que te deixou muito mais forte e mais madura.
    O fato de você compartilhar a sua história no Instagram, mostra o quanto você é uma pessoa altruísta.

  5. Ana Paula Monteiro says:

    Parabéns minha linda por essa garra, por essa mensagem linda que você transmite através da sua vida e por essa paz que nos faz acreditar que tudo é possível. Você é uma vencedora!

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